Tá tudo muito confuso, a gente tem se esbarrado bastante, mas ainda assim, somos estranhos.
Desses que se encontram e não sabem o que dizer, desses que a gente atravessa a rua, finge que não viu ou amarra o cadarço pra passar batido. Ainda somos aqueles semi-conhecidos ou desconhecidos que se entristecem na mulltidão, que não se destacam, que não fazem nome.
Somos esses quase amantes, esses quase amores que nunca se fizeram vida, que nunca se deram opção. A gente precisava de opção.
Eu quase não sei o que você tem feito, como você tem ido, aquele espaço vago entre um curso e outro e as férias tão esperadas. Não sei pra onde você viaja, pra onde você anseia ou o que você espera. Não sei mais dos seus sonhos, nem se os tem. Você não sabe do último livro que eu li, da última carta que eu escrevi, dos post-its que eu colei pra não esquecer.
Não sabe que em um deles tem o seu nome, com aquela caneta laranja choque que quase não aparece no post-it roxa fluorescente. Mas ali fica, estampada na porta do armário junto com milhões de outros lembretes, datas, convites, calendários riscados. Lembro dos riscos vermelhos que eu fazia nos dias que eu te via, todos os riscos são feitos de azul. Faz um tempo, né?
A gente sempre soube que isso um dia aconteceria, nos preparamos nas mais diversas formas, o jeito como você sumia de repente ou a forma como eu tentava fazer você não me encontrar. Não teve como, sumimos, não nos encontramos e nos perdemos.
Se os gostos ainda são os mesmos ou se as palavras ainda podem ser ditas? Alguma coisa ficou, mas a gente nem sabe mais o quê...
Se eu te espero na esquina e você não sabe que eu sou eu, porque meu cabelo cresceu e meu rosto alargou. Eu nem que você é você, porque a calça substitui a bermuda e todo o resto se faz diferente, nos pequenos detalhes que eu mais amava em você.
E a gente se olha, abaixa a cabeça naquele "Opa!" sem graça, dá um sorriso de leve que quase não aparece e tenta lembrar "De onde mesmo a gente se conhece?". Eu não sei e seguimos, porque tudo gira em torno de continuar, seguir em frente, dar a volta por cima. Seguimos com um vazio esburacando o peito, uma incerteza que esmaga qualquer sentimento.
E a gente nem sabe que se amou, que se quis, que se precisou. E você fica num post-it, numa foto, numa lembrança que eu nem tenho e eu não sei aonde eu tô, porque eu nunca estive sem você.
E eu olho pra trás tentando lembrar e você olha pra mim tentando lembrar e a gente fecha o olho, mas nada acontece e a gente se despede pela milésima vez e continua doendo, uma dor igual, de uma despedida igual. Uma estranha sensação de um estranho qualquer.