Ainda danço as mesmas músicas do mesmo jeito, meio desengonçada, com aqueles mesmos passos, com aquela mesma cara.
Ainda cubro os olhos com as mãos em filmes apavorantes de terror e fico uma noite inteira sem dormir com medo de alguma coisa do filme acontecer comigo.
Ainda subo as escadas tropeçando em todos os degraus e fico olhando o corrimão me perguntando: “Desço ou não desço?”, ninguém me empurra.
Ainda colo os retratos em cartolinas e finjo que são trabalhos escolares e fico apresentando pras minhas bonecas (que agora nem existem mais) cada pessoa importante, como se esse fosse o meu trabalho que mais valasse nota: as pessoas da minha vida.
Ainda atravesso a rua quando eu vejo um pombo e passo vergonha (dessa vez sozinha) quando voa algum na minha direção inesperadamente, continuo apavorada com as mesmas coisas bestas de sempre.
Voltei a fazer dois baldes de pipoca quando sei que vou ter que dividi-las e sempre compro a maior do cinema, mesmo quando eu vou sozinha e na maioria das vezes sempre sobra, mas sabe como é? Pipoca é sagrada.
Ainda cumprimento algumas pessoas com o meu famoso “bu” e espero a resposta de “ah!”, mas elas nunca dão. Na maioria das vezes penso que as pessoas me vêem meio louca, meio fora do esquadro. Isso nunca foi um problema muito grande no nosso ex esquadro.
Ainda falo sem parar quando eu estou nervosa, assuntos desconexos só para não pensar naquilo que eu deveria.
Ainda faço lista de festa de aniversário e risco todas as pessoas, por pura maldade. Faço tudo isso sozinha.
Corro na chuva só pra voltar pra casa e fingir que alguém fala “não vai ficar doente”, eu nem fico mais doente há tempos, sei lá, aprendi a me virar.
Ainda fico imaginando se eu conseguiria ficar em pé no teto, vira e mexe eu tento e a parede fica marcada com meu pé, só que ninguém briga e as marcas ficam lá até eu ter coragem de tirá-las e tentar de novo. A freqüência tem diminuído, tenho medo do que vem sendo colocando no lugar desses momentos.
Minha perna não cabe mais no vão da porta, não dá pra subir. Nem tento mais... Menos um.
Minha cama por maior que seja agora, não suporta que eu fique tentando dar cambalhotas e eu me esqueci como se faz, esqueci até que eu tinha medo de quebrar o pescoço. Esqueci de muita coisa.
Desaprendi a tocar flauta e você nunca mais vai dizer o quanto eu tocava bem (mesmo que eu sempre tenha sido a mais desafinada).
Minha cama quase sempre fica arrumada, tirando as semanas de prova. Nada de toalha em cima, nada de sapatos em baixo, nada de roupas espalhadas. Tudo direitinho aprendi bem.
Tem sons que nem tocam mais, o rádio, por exemplo, nunca fica sintonizado na 96 enquanto eu fico gritando: “Não quero ir hoje”, pra mais uma aula de ballet ou pro curso de inglês.
Ninguém me leva pra faculdade agora, tenho que ir com as minhas próprias pernas, sem nem esperar um beijo mesmo quando o meu maior mau humor pede por silêncio.
Continuo deixando muitas coisas pra última hora, mas ninguém me diz a quão aliviada eu ficaria se começasse a fazer tudo antes. Eu sempre tenho que ouvir isso de mim mesma.
Muita coisa continua a mesma, ainda sou menina que precisa de cuidados especiais, de atenção e que fica inventando mil desculpas pra sentir saudade. Ainda perco todos os meus compromissos importantes só por medo de me frustrar, ainda deixo de me envolver com pessoas excepcionais, só por medo de não me enquadrar. Continuo a mesma medrosa que liga a luz do abajur no meio da noite. Continuo a mesma medrosa que escuta o tic tac do relógio e acha que é o lobo mau que ta caminhando na direção do meu quarto.
Mas é como se tudo que ainda existisse só pudesse ser meu quando eu estou com você, como se tudo que eu sou e tudo que eu ainda guardo, é tudo que você fez com que eu fosse. Faz tanta falta tudo que eu podia sendo com você.

