segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Meu estranho.

Tá tudo muito confuso, a gente tem se esbarrado bastante, mas ainda assim, somos estranhos.
Desses que se encontram e não sabem o que dizer, desses que a gente atravessa a rua, finge que não viu ou amarra o cadarço pra passar batido. Ainda somos aqueles semi-conhecidos ou desconhecidos que se entristecem na mulltidão, que não se destacam, que não fazem nome.
Somos esses quase amantes, esses quase amores que nunca se fizeram vida, que nunca se deram opção. A gente precisava de opção.
Eu quase não sei o que você tem feito, como você tem ido, aquele espaço vago entre um curso e outro e as férias tão esperadas. Não sei pra onde você viaja, pra onde você anseia ou o que você espera. Não sei mais dos seus sonhos, nem se os tem. Você não sabe do último livro que eu li, da última carta que eu escrevi, dos post-its que eu colei pra não esquecer.
Não sabe que em um deles tem o seu nome, com aquela caneta laranja choque que quase não aparece no post-it roxa fluorescente. Mas ali fica, estampada na porta do armário junto com milhões de outros lembretes, datas, convites, calendários riscados. Lembro dos riscos vermelhos que eu fazia nos dias que eu te via, todos os riscos são feitos de azul. Faz um tempo, né?
A gente sempre soube que isso um dia aconteceria, nos preparamos nas mais diversas formas, o jeito como você sumia de repente ou a forma como eu tentava fazer você não me encontrar. Não teve como, sumimos, não nos encontramos e nos perdemos.
Se os gostos ainda são os mesmos ou se as palavras ainda podem ser ditas? Alguma coisa ficou, mas a gente nem sabe mais o quê...
Se eu te espero na esquina e você não sabe que eu sou eu, porque meu cabelo cresceu e meu rosto alargou. Eu nem que você é você, porque a calça substitui a bermuda e todo o resto se faz diferente, nos pequenos detalhes que eu mais amava em você.
E a gente se olha, abaixa a cabeça naquele "Opa!" sem graça, dá um sorriso de leve que quase não aparece e tenta lembrar "De onde mesmo a gente se conhece?". Eu não sei e seguimos, porque tudo gira em torno de continuar, seguir em frente, dar a volta por cima. Seguimos com um vazio esburacando o peito, uma incerteza que esmaga qualquer sentimento.
E a gente nem sabe que se amou, que se quis, que se precisou. E você fica num post-it, numa foto, numa lembrança que eu nem tenho e eu não sei aonde eu tô, porque eu nunca estive sem você.
E eu olho pra trás tentando lembrar e você olha pra mim tentando lembrar e a gente fecha o olho, mas nada acontece e a gente se despede pela milésima vez e continua doendo, uma dor igual, de uma despedida igual. Uma estranha sensação de um estranho qualquer.

Não dá mais tempo.

Não, agora não dá mais tempo.
Não dá tempo de pedir desculpa, de esperar doer, de fazer acontecer. Foi tudo embora, foi tudo como não queríamos, mas foi.
O que eu quero é muito e você nunca foi capaz de dar esse tanto. Exigências.
Do que eu mais sinto falta, ainda não sei lembrar, mas acredito que muito do que eu sinto é o que realmente não existiu, um espaço em branco entre o que fomos e tudo que deveríamos ter sido.
Ainda quero que aconteça, ainda quero seus olhos dizendo tudo que as palavras não traduzem, quero tudo diferente, quero um dia que eu tive com qualquer outra pessoa. Quero a gente.
Agora não dá mais tempo, não é hora de correr atrás, não é hora de fazer cena, nem de dizer qualquer mentira sem fundamento pra que possamos ficar. É o que o limite que cai.
O que eu posso fazer? Já fiz de tudo, já fiz demais. Não é simplesmente esquecer e recomeçar. É muito mais que isso e intensidade nunca foi seu forte.
Quero tudo de novo, quero tudo diferente, quero tudo novo. Novidade do que a gente vai ser, mas não dá mais tempo, já fomos.
É dramátic demais, é sozinho demais. Não é mais explicável, não é algo que possa ser entendido. Tudo que é simples a gente confunde.
Eu quero de volta, um sorriso, uma palavra, um carinho, quero essa sensação inexplicável de o mundo escapar das mãos só de ouvir você chegar, quero um dia inteiro só pensando na gente, quero um sorriso no canto do rosto quando eu lembro de você, quero falar seu nome em cada frase só pra dizer que eu te lembro, quero esse gosto diferente, essa rima meio estranha e um papel em branco pra gente escrever em cima. Eu quero... E agora não dá mais tempo.

domingo, 14 de novembro de 2010

Esquecer.

Algumas coisas foram esquecidas, a maioria delas. Esquecemos por medo de serem lembradas mais tarde, esquecemos porque fizeram mal no passado, esquecemos porque não queríamos relembrar nossos pequenos erros que estragaram tudo. Muita coisa foi esquecida, sempre me pergunto se acabei nesse meio tempo, esquecendo coisas que não deveriam ter ido embora, nunca me lembro realmente e a dúvida é algo quase tão cortante quanto a vontade de lembrar o que não volta.
Não tenho mais procurado seu rosto nas ruas, nem esperado que, de alguma forma você chegue na sala de cinema fazendo um filme de verdade. Não crio mais aquelas fantasias incríveis na minha cabeça e nem me deixo decepcionar com os seus não-atos, essa coisa de "não-fazer" e "não-estar" foi presente por tanto tempo que foi quase um desacostumar, dessa vez não doeu.
Recriei falas para os nossos dialógos inexistentes e nenhuma delas foi realmente dita ou transparecida, não precisei dizer ou ouvir muitas coisas, já entendi tudo sem as palavras serem necessariamente importantes.
A última vez que eu soube foi um choque, essas coisas horríveis que dizem sobre quem você é, alguém que eu nunca quis realmente enxergar, esse meu lado inoportuno que sempre aparece para me fazer projetar coisas boas nas pessoas, que sempre me fazem esquecer os lados. Não foi realmente uma questão em que eu pudesse ficar com nojo, mas fiquei. Nojo de mim por não ter visto você, nojo de você por não ter visto em mim o que eu via e essas coisas entre-cortadas que eu nem sei mais como são.
Dessa vez foi diferente, ouvi, filtrei e larguei. É meio aquilo que eu aprendi, a gente só se importa quando a pessoa ou a situação em questão realmente são dignas disso e fica meio essa dúvida, né? Outra. Não sei se cheguei ao ponto de não me importar mais, de mudar os sentimentos, de esquecer tudo e só entender o que você é agora. Não que eu não me importe, só não faço questão de mudar o que eu descobri, de perguntar, de ligar nesse desespero insano dizendo as coisas que você não precisa ouvir.
Foi preciso que esquecessemos muitas coisas pra que pudessemos chegar aonde chegamos, sempre me pergunto aonde estariamos se ainda lembrassemos... Mas eu esqueço.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Muda sem você.

As coisas continuam mudando sem você. Demorei um pouco pra perceber que algumas frases de efeito fazem todo sentido vez ou outra, demorei um pouco pra perceber que as coisas tendem a seguir mesmo quando o meu mundo parece ter estagnado.
Algumas coisas ainda acontecem do mesmo jeito, algumas poucas que eu tento segurar a fim de fazê-las eternas só pra te eternizar também. E eu nem sei ao certo o que significa isso, só sei que é bonito e parece durar, então eu tento.
Desfiz algumas teorias que construimos, não por não acreditar nelas, porque simplesmente elas perderam a validade. Acho que as pessoas não deveriam ter validade, algumas simplesmente tinham que durar pra sempre, você é uma delas.
Desacreditei de mim de novo, mesmo com essa estrela de quatro pontas escancarada no meu pulso. Preciso da sua frase de fim de noite do "Você é especial" pra que eu realmente seja. A estrela não tem feito muito efeito. Imagino como você reagiria se a visse, com certeza diria alguma coisa pra me impedir, algo que eu facilmente ignoraria e chegaria com ela do jeito que está e iniciariamos uma discussão de dois segundos sobre o quanto eu sou inconsequente.
Você sempre respeitou meu fascínio por discussões, nunca me cortou ou me limitou, sempre discutia comigo as coisas mais idiotas que eu inventava pra brigar. Eu sempre achei que brigas faziam as relações mais sólidas, você foi embora do mesmo jeito.
Antes de dormir eu fecho os olhos e imagino você me dando aquele boa noite bem cansado e ouço você suspirando bem fundo, tentando não fazer com que eu note toda sua preocupação, é como se alguma coisa já te dissesse tudo que aconteceria e você se preocupava sem me preocupar, coisa que você não sabia é que qualquer mudança era significativa pra mim, então eu já notava sem precisar ser dito.
Lembro de você dizendo que não mudaria nem um defeito em mim e que colocaria em molduras todas as minhas qualidades, feito diplomas de consultórios médicos e mostraria para todos que quisessem ver o quanto eu era importante e o quanto você tinha sorte. Eu nunca mais consegui ser eu mesma com as pessoas, não acho que elas consigam notar tudo o que você notava em mim, então eu finjo ser alguém só pra agradar, só pra fazer vista. Ninguém nunca vai me conhecer e acho que por respeito a tudo que você sabia, porque não quero que ninguém saiba sobre mim como você e até acho que ninguém faria tanta questão dos meus defeitos, tampouco das minhas qualidades. Não acredito nelas.
Além de mentir sobre quem sou, minto sobre o que gosto. Não faço questão de contar meus gostos exóticos, nem minhas cores exageradas. Minto muito, só pra ninguém descobrir sobre você.
Ando com um sorriso estampado no rosto fingindo que tudo bem, que a vida tá seguindo como deveria, que as coisas andam no ritmo e que tudo esta de acordo, não me imagino sentada em algum lugar falando sobre o quanto eu sinto a sua falta, seja pra quem for. Não me imaginando chorando com alguém por sua causa, ninguém precisa saber de nada e ninguém vai saber de nada, é muito nosso pra tornar deles. Então eu deixo esse sorriso fingido enquanto as coisas acontecem assustadoramente sem você pra me trazer qualquer conforto.
Algumas vezes deixo minha psicose florecer e converso com você, sinto seu cheiro bem de perto e acho que você vem vindo então eu espero. É sempre muito desesperador quando você não chega, quando a porta não abre, quando nada acontece.
Desaprendi a chorar pelas coisas bobas do dia-a-dia, não sei mais sentir tudo o que eu sentia com você, não tem muito sentido agora. Eu só finjo, mas nem assim, não tenho sido muito boa atriz. "Você vai ser" e não, eu não vou ser. Não sem você, não sei ser sem você.
Depois disso acabou, eu disse uma vez que não precisava das pessoas, fiz um discurso ridículo sobre minha auto suficiência com esse ego inflado e você me disse que eu me arrependeria de não deixar as pessoas entrarem na minha vida, que eu deveria precisar de alguém e me apoiar em alguém. Eu preciso de você!
E agora que não posso mais, continuo sem saber precisar das pessoas, mando-as embora se percebo um afeto maior, te respeito assim, mas não é bem isso que a gente pretendia. Não é bem por isso que eu me afasto, é mais por não saber precisar, é mais por não poder perder os dias assim, é mais por não suportar tudo que vai quando a pessoa que eu preciso já foi e eu não sei fazer isso.
Você não aparece mais, não vem nos meus sonhos e nunca foi de aparecer em pessoas, nunca, nem uma vez te confundi com alguém na rua e agora você sumiu. Não sei como são as coisas por aí, nem o tempo vago que você tem pra me visitar, nem se realmente gosta dessas visitas, mas nem em sonhos? Eu não merecia pelo menos isso? Eu sei que você mora no meu inconsciente, então cadê?
Tudo continua mudando sem você aqui, sinto uma vontade enorme de te contar das minhas vitórias e de chorar meus fracassos, sei que você daria seu jeito de melhorar tudo, você tinha um super poder que eu nunca entendi, mas que sempre funcionou. Eu fico tentando lembrar de tudo, só pra em nenhum segundo esquecer de você. Eu tenho medo disso, de repente você sumir dos meus pensamentos também. E depois disso o que pode ser? O que eu vou fazer?
E tudo fica girando e passando e ninguém se importa, também pudera, ninguém nem sabe. As mudanças são superficiais, aqui dentro é tudo igual a diferença é o vazio que não cessa nem por um segundo, nem de brincadeira, fica latejando sem descanso, fazendo um barulho amedrontador que não para se eu pedir.
Daqui a pouco passar? E quando passar? E se não passar? Mas as coisas continuam mudando sem você e não importa quantas questões eu levante, quantos medos eu tenha, quanto tempo demore pra mudar aqui, elas não estão aí, simplesmente mudam sem saber se eu posso, sem saber se eu vou conseguir. Você saberia o que fazer, mas você já não pode, já não consegue e tudo volta pro mesmo lugar: sem você.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Caderneta cor de rosa.


De novo, eu e meu caderninho rosa choque se destoando de todas as pessoas concentradas demais pra prestarem atenção na gente. Sorte a nossa, nem queríamos ser reparados, pra falar a verdade, queríamos ser iguais a todos os olhos fixados em outras palavras, queríamos nos interessar mais e anotar coisas mais pertinentes, queríamos não mais nos sentir distintos naquele meio. Queríamos ser brancos e pretos, ou uma simples prancheta que segura e demonstra segurança.
Éramos rosa demais, pequenos demais e escritos com bobagens demais. Tudo em exagero exatamente como pretendíamos, só pra não sermos notados.
Procurei algum olhar diferente pra me juntar ninguém estava realmente interessado em dividir minhas idéias brilhantes de lua cheia e chuva. Ninguém estava realmente interessado em nada, só fingiam se concentrar, mas era nítido que eles estavam em algum lugar bem distante que não ali naquela sala, exatamente como eu. Enquanto a pessoa em frente falava sobre assuntos que eu nunca vou conseguir me lembrar, mas que mesmo assim entrarão para o meu currículo que mais tarde dirá algo sobre quem sou eu. Grande coisa! Parabéns, você tem um diploma.
Muita coisa ficou vazia nesse tempo, muita coisa sem entender os motivos, muitas cartas soltas e palavras vãs, muitos problemas alheios para resolver e muitos meus jogados em gavetas trancadas pra nunca mais serem lembrados. Já viu como os fantasmas têm uma facilidade magnífica de surgirem quando você menos espera? E te assustarem até você morrer, como eles. Meus problemas são meus fantasmas, tranco dentro de gavetas sujas e eles dão um jeito de aparecer sempre, abertos e limpos como dá primeira vez que vieram pra mim e não foram bem quistos.
Anotei alguma coisa na minha cadernetinha e fiquei prestando atenção em qualquer coisa, só pra ter algo pra contar na ligação de mais tarde, nada que realmente eu possa dizer de interessante, só pra estender o assunto e ficar mais perto, só pra participar do dia-a-dia e ter alguém comigo no meu dia-a-dia.
Consegui fazer perguntas, eu sempre gosto de participar dessas coisas só pra aumentar um pouco daquilo que eu acho que eu tenho e que me falta tanto, algo como inflar o ego com conhecimentos extras de coisas que você nunca vai usar numa conversa casual, de coisas que você nunca vai contar pros seus filhos, conhecimentos seus que nunca vão servir de nada, mas que eu insisto em adquirir porque, de alguma forma, isso faz com que eu seja mais completa, com que tenha mais valor. Parece piada, mas não é.
Uma dinâmica de grupo, que maravilha! Guardei minha cadernetinha rosa choque e me preparei para essa maravilhosa dinâmica de grupo, que por mais diferente das outras mis que eu já fiz em toda a minha vida, parecem que são exatamente iguais. Não sei por qual motivo as pessoas acham que fazendo alguma coisa assim saberão sou apta para algum trabalho, posição ou qualquer outra coisa. Não é através de uma dinâmica que se conhece alguém, mas ok, é a minha profissão quem pode contestar? Com certeza não eu.
Depois de duas horas sentada e levantando esporadicamente pra alguma dinâmica imbecil na qual eu me fingi muito interessada e disposta acabou toda a palhaçada que deveria ser meu divertimento da semana, ando me divertindo com tantas coisas idiotas que tenho tido medo de mim mesma, nada como um dia acadêmico que eu possa me sentir alguém importante.
Astrologia confirmada, personalidade confirmada. E agora? É isso que eu vou ser? Alguém que se esforça pra ser importante demais intelectualmente? É só isso? Isso é muita coisa, é, é muita coisa pra uma conversa de 15 minutos no final de um dia trancada no meu quarto sem fazer nada que não seja pensar “O que eu realmente estou procurando nesse lugar?”. Muita coisa pra quem quer sair correndo e se sentir pertencente, muita coisa pra quem tenta todo santo dia ser alguém diferente, mudar as coisas que nunca foram minhas, transformar todo esse espaço que nunca foi meu, acabar com esses meus medos idiotas que me fazem ficar uma hora e quinze minutos dentro de uma sala com a minha analista tendo que ouvir todos as minhas frustrações imbecis de como eu preciso não temer as coisas mais idiotas do mundo e como eu preciso confiar mais em mim e essas coisas que você mesma me diz nessas nossas conversas de fim de tarde deitadas na cama, ou na cozinha tomando nosso eterno café.
Eu sinto falta disso, sabe? Dessa cumplicidade de 17 anos, sinto falta de ser criança de novo e de poder fazer tudo sem me preocupar, sinto falta de não ter que acordar pensando que eu preciso de um trabalho ou que preciso ser uma intelectual com um diploma na mão. Sinto falta da gente e um final de semana nunca é o suficiente pra gente, sinto falta de tudo, até dela e isso você sabe muito bem, porque eu nunca escondi, nem nas festas, nem nas datas e principalmente agora, acho que deveríamos acabar com os segundos dias de todos os meses, pelo menos se eu soubesse que durante esses dias eu só quisesse uma presença.
E no final das contas, desse dia cheio de coisas interessantíssimas, de pessoas fingidas e de um mar de gente que nunca me viu na vida tentando entrar nos meus problemas que eu nunca vou contar e que sempre vem me assombrar tirando o sono que eu tenho de sobra numa noite mal dormida, tremendo de medo de um sonho desfeito. No final das contas somos só eu e meu caderninho rosa choque tentando não ser ninguém, cheio de anotações importantes demais, com umas folhas rosas sem escritas implorando pra serem lineares, a gente nunca consegue e no final das contas, no final de tudo isso a graça é viver tentando né? Então, estamos aqui, tentando preencher todas essas folhas coloridas de ardes os olhos e ser alguém diferente e todo o resto.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Encorajando a covardia.


Já sei o quanto isso não vai durar. Sei o tempo que não foi e o que nunca vai ser. Sei que muita coisa inventada pra ser verdade, acabou se misturando na invenção do que a gente não teve, sei o tempo todo que fui alguém que quis, alguém que tentou, alguém que se embolou nas incessantes vontades de sempre ter você por perto. Ou alguém por perto.
Fui deixando as coisas passarem e elas passaram, demoraram um tempo infinito que parecia que se arrastava nos dias em que o que eu mais queria era acordar com você comigo. Fui me levando a lugares que nunca me completaram, pelo simples fato de não suportar te enxergar em lugares que seriam completos se estivéssemos juntos. Me sentia cada vez menor,  sempre diminuída te exaltando nesse pedestal que nunca foi seu e que você nunca pediu pra que fosse. Você nunca pediu nada de mim, embora tudo que eu possuísse em algum momento, fosse todo seu.
Fui obrigada a me abster de certezas que sempre se migravam em incertezas constantes, calei as ligações que nunca chamaram, os pedidos, os sussurros e as palavras que nunca vieram, que ficaram sempre pra depois, pra um futuro que não chegou.
Fico o tempo inteiro pensando no tempo que perdi desejando tanto e perco um tempo maior ainda nessa culpa de sempre te desculpar de erros que você nunca cometeu. Sinto os nós embolados nos dias que não passamos juntos, nas manhãs que eu acordei sozinha e nos sorrisos que eu não compartilhei.
Ainda é estranho, já que a vida que eu vinha vivendo era de exclusividade sua. Retive todos os meus sentimentos unificando-os à você, as coisas só poderiam ser certas a partir de você e não era a primeira vez que eu consegui fazer isso com alguém, dar uma importância tão grande à alguém que não queria ser importante. Mas histórias não se repetem e foi difícil conseguir encaixar todos os pontos em seus devidos lugares, foi difícil entender as coisas que antes eram avulsas, quase impossível unir todas as peças do quebra-cabeça quebrado.
Mas agora é mais fácil, já é hora de distinguir histórias, rever sentimentos e fazer as coisas por mim. É hora de soltar todo esse vinculo que eu criei em dias inexistentes, toda essa saudade inoportuna do “e se”, toda essa vontade de ter sido, de fazer, de completar.
É por isso que eu vou desistindo, sem medo ou vergonha, sem tempo de duração ou prazo de validade. Resolvi desligar o som que tocava no meu rádio repetidas vezes e nunca me dizia nada, resolvi resgatar as coisas que faltavam em mim que não eram trazidas por você.
Ando mais sozinha, mais minha, mais inteira. Como se tudo que eu precisasse era desistir pra me sentir corajosa, não que não vá fazer falta perder todos esses minutos que eu perdia, esperar incansavelmente pelas coisas que você não trouxe, não que não vá doer te olhar e não sentir, te olhar e não querer ou ter que não querer. É só uma regressão ao ponto em que eu venho me fazendo o bem e não em que alguém precise me ditar essas sensações.
Não é desmerecendo importância, não é desfazendo o que realmente foi, é só desistindo de um futuro impossível, de uma história que não pôde começar. Vou guardar uma memória, uma realidade, a gente espera se ver, ou pelo menos deveria. Com outros olhos mais fracos, com outras certezas e brilhos. Sei que não é, nem se tiver que ser. Não desisto por você, desisto pela parte de mim que não consegue mais.
E não prevejo dor, não espero mais nem de mim, nem de você. Só vou levando assim, sem essas culpas e sonhos, um pouco mais vazia, um pouco mais sozinha, um pouco mais certa.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Não voltarei ao Hawaii.

Depois de um bom tempo calmas, as ondas voltaram a atormentar. Oscilando constantemente num barulho de tirar o sono e trazer pesadelos que antes eram ausentes, de volta as noites que chegaram a ser tranquilas.
Voltar ao Hawaii é sempre assustador, a ideia de beleza se perde nos outros aspectos assombrosos que o lugar proporciona e o cuidado se desespera na expectativa frustrada.
Era tudo melhor há um tempo, não bom, melhor. E as coisas de repente mudaram de foco, voltando ao seu ponto difícil de origem pavorosa.
Não tenho mais capacidade de suportar as ondas fortes e instáveis. Não tenho mais força para lutar contra e voltar ao estado pacífico, não me proponho a fazer isso sozinha nem mais uma vez, nem mais um dia. O mar é muito cansativo, mesmo pra quem sabe nadar.
Voltei certa de que algumas coisas não seriam mais as mesmas e certa de que a luta que antes foi feita para que houvesse um costume posterior não mais existiria. A frustração foi grande e aos poucos as ondas foram me levando e me cobrindo.
O show agora é delas, como sempre queriam que fosse. Barulhentas, oscilantes, instáveis. E o show vai ter graça agora que não tem mais platéia?
A tentativa de me arrastar de volta à esse espaço foi forte, mas eu me recuso a passar por todo o medo de enfrentar sozinha de novo.
Não faço questão de transformar mais nada, que o mar faça sua própria bagunça e se perca nela. Meu espaço, embora sozinho, está encontrado, é uma pena que não possamos nadar na mesma direção.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estrelinha.

Ela continua não chegando, já faz um tempo que as luzes estão acessas e que a noite fica escura demais. Ela não vem, não quando eu chamo, não quando eu fecho os olhos, não quando eu preciso.
As coisas mudam com uma rapidez assustadora e a falta que ela faz continua crescendo nessa mesma proporção. Estamos distantes de um mundo de verdade, sempre aconselhamos nossos lados a serem mais alegres, mas alegria se distingue de saudade e nunca dá pra ser feliz por inteiro quando ela não chega.
Algumas coisas ficaram bem claras, não faço mais bolos de aniversário, não escrevo mais cartas, não guardo mais lugar no carro. Pra ser sincera, quase não uso mais o carro e o que ela costumava sentar nem existe mais.
Não uso mais de significados para lembrar, nem faço mais questão de subir morros para encontrá-la, onde eu realmente devo chegar é distante demais e ainda resta uma dúvida se ela estaria me esperando se eu realmente fosse ao seu encontro. Não penso mais nas possibilidades de nos vermos em outro mundo, não sei se deveria continuar esperançosa, mas acho que a gente nem se reconheceria e alguma coisa fica tão vazia aqui dentro, porque a gente nem se conhece mais. A gente nunca se conheceu.
Faço questão de algumas pequenas coisas como dizer oi à estrela que brilha no céu por ter certeza que é ela que está brilhando por ali, conto histórias nossas pra mim que nunca existiriam e tento imaginar a vida que teriamos, sinto saudade disso. Do que nunca fomos.
Não uso mais sua toalha, que pra dizer a verdade, não sei onde foi parar. Mas não me deram e eu nunca questionei, não tanto quanto questionava sua ausência. Não tanto quanto não entendi por que você foi embora, se eu já te amava tanto.
Ainda custa pra entender coisas desse tipo, ainda tento me sustentar com crenças que nem minhas são, só pra ter algumas certezas da sua presença, só pra achar que você pode me ouvir e eu nunca sei se isso beira a loucura ou se saudade em demasia pode ser transtorno.
O dia vem chegando, mas todos os segundos dias de todos os meses são seus, não importa qual. Maio ou novembro, todos os 12 meses são só seus e não suporto quem tente roubar isso de você, já te roubaram muito de mim, então deixo isso pra gente.
E eu que dizia que conseguiria dormir no escuro porque não esperaria mais, eu que dizia que tentaria não sentir sua falta porque as coisas precisam mudar e eu preciso me acostumar. Eu que dizia que tudo passa, que tudo se acumula em lembranças e que tudo vai ficar bem.
Mas ainda que eu tente impedir, continuo esperando ela chegar, continuo esperando ela brilhar todas as noites perto demais, longe demais. E continuo tentando sonhar, sozinha, a vida que não tivemos juntas.
E vou continuar subindo os morros, até que me levem adiante e espero que a gente se reconheça e que tudo fique bem, que tudo seja melhor e que "vida" ganhe sentido.
Ao que não foi nosso e ao que não vai ser.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Capital.


Principio-me nesse refúgio cadente de estrela. Quase no meio de um dia, escondida atrás da maior.
Minha capital dos sofrimentos arraigados, minha solitude maximizada em escolha. E essa pedra no lugar errado que suga as dianteiras casas ocultas do meu viver. Essa pedra que não monta tijolos, que não constrói castelos. Coloca-se no caminho e fica na intenção de me acompanhar num refúgio que é só meu, na minha própria casa do medo.
Meus melhores cacos soltos pelo chão de vidro, transparecendo as margens sonoras do fim do mundo, logo ali, é só olhar para frente.
Quase todos os dias a inserção nessa pedra se intensifica, menosprezo os olhares que ultrapassam nossos seres sem vida. E a estrela que se apaga, nessa proporção pequena para os outros casos trancafiados em muitos terrores vividos.
Sinto-me o mimo de ante ontem que me apavorou em náuseas infiéis, prestes a tirar de mim todo esse conforto do exterior capitalista.
Melhor agora, eu. Não preciso me acostumar, somos nosso meio de comunicação, a parede e agora a pedra dentro de mim, me fazendo companhia como um urso macio e gostoso.
Engasgando-me as palavras desesperadas que sopram para dentro as tentativas de devaneio, de mistura, de silêncio.
Esse sistema precário de abundância acrescentada em partes extraordinárias de um lugar no rio corrente, transbordando a ingenuidade, a falha, a farsa.
Meu refúgio de papel crepom se desfazendo no vidro e chegando perto demais... Fazendo-se minha carteira de identidade, meu protótipo ferrado! E logo ali, embaixo, o vidro se quebrando em pedaços, se misturando aos cacos de mim e a pedra se dissipando em diamante... FIM!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

-.

Acho que às vezes você precisa de motivos para estar triste ou de solidão para se sentir sozinho.
Muitas vezes fiquei triste sem saber se tinha um motivo, muitas vezes me senti sozinha rodiada de pessoas.
Tudo que eu sempre procurei foi me enfeitar de pedidos, me desfazer de promessas e me manter perto de qualquer problema, sempre foi mais fácil criar problemas que não teriam que vir com respostas. Nunca esperei que os meus viessem com algum manual que disesse quando tudo acabaria, sempre tive dificuldade em terminar coisas e sempre me coloquei em círculos infinitos esperançosos de coisas que nunca começaram.
Prefiro me confundir a me resolver, assim tudo fica complicado demais para simplificar e decidir.
Todas as decisões que eu tomei até hoje me trouxeram mais problemas, talvez por isso eu as tenha tomado, no fundo eu sabia que viria um pouco mais de adrenalina, um pouco mais de sofrimento.
Procura-se por algo que não se pode ter e vai à luta como se a luta fizesse conseguir e me culpo eternamente por não ter conseguido, até vir algo mais estigante e lá vamos nós de novo, tentar ter alguma coisa que não será nossa.
Planos despeçados, decepções inúmeras e muitos, muitos pequenos problemas que sempre tiveram proporções enormes.
Enquanto eu prefiro me esconder nas confusões e nunca me fazer entender em soluções, as respostas vão chegando e indo embora com facilidade aterrorizante e eu sempre me pergunto se eu deveria procurar por elas dessa vez, mas sempre estou ocupada depois procurando por uma outra confusão.
E começa todo o círculo de novo, como uma droga que me mantém em alta, como uma porção de coisas sem valor que me enriquecem, como esconder tudo que você sempre quis e não saber ao certo o que é.
Vivo me perdendo e nunca procuro me achar, tenho medo de me descobrir a solução e não pretendo entender.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eu nunca consegui em anos dizer não à você. Nunca me senti forte o suficiente pra me sentir feliz sem você. Quando você não estava tudo perdia a graça, quando você não ligava o mundo desabava e quando era preciso que nos separassemos tudo era confuso. Foi assim por muito tempo, você sabe, toda essa necessidade que eu tinha de ser completa só com você, de me sentir bem só por você.
Sempre achei que depois de você o mundo acabava, era o fim de tudo e que nunca conseguiria esquecer, que ia ser pra sempre, quer dizer, achavamos que seria pra sempre. Muita coisa ficou pra trás, hoje muitas coisas me voltaram a memória, coisas boas e ruins, coisas que eu evitei pensar e outras que eu fazia questão de sempre lembrar.
Nunca precisamos nos esteriotipar, isso era medo ou falta de amor? Eu achei que tivessemos nos perdido, que tivessemo nos esquecido. De repente você surge cinco horas da manhã me dizendo que sente saudade e espera que eu simplesmente aja de acordo? É como se você não me conhecesse, antes de tudo me acordar é meio suicídio e você nunca deveria ter esquecido disso, mas na verdade acho que você nunca se importou realmente com as coisas que me incomodavam, sempre fazendo questão de repeti-las inumeras vezes, a fim de me trazer todos os questionamentos possíveis. Tudo bem, eu também sinto a sua falta as cinco horas da manhã quando eu estou preocupada com a prova do dia seguinte, mas você poderia me deixar dormir e pensar nisso depois? Não, você nunca pode deixar pra depois, tudo tem que ser do seu jeito, na sua hora.
E aí eu te disse "Não", disse que não queria mais, que não sentia mais e que o espaço vazio que tinha ficado quando você simplesmente não ligou tinha gostado de mim. Você insistiu, eu cedi porque as vezes a gente cede, chuva é uma coisa que me faz lembrar você e o tempo colaborou a seu favor.
A gente poderia se encontrar enfim, em algum lugar que não nos trouxesse lembranças, que não nos fizesse regredir. E aí eu pude olhar pra você e concordar com tudo que durante muito, muito tempo eu tentei não enxergar: não devemos ficar juntos. Quer dizer, acabou. Adianta seguir em frente se a gente vai dar um jeito de se encontrar? Se um dia disessemos que nunca deixariamos de ficar juntos?
Que tipo de cosmos ouviu isso e resolveu concordar? Que tipo de sentimento é esse que faz com que tudo volte ao normal, mesmo quando não está?
Não! EU não quero mais. Ouvir isso de mim dói né? Logo eu que sempre quis, que sempre cedi, que sempre aceitei. Logo eu que fingi que nada nunca acontecia só pra te ter por perto, logo eu que me esforçava pra estar sempre junto, que ligava pra dizer que tudo bem, a gente não precisa dar nome a nada. Que escutava tudo que me diziam e fingia que era mentira. Logo eu que nunca soube dizer não, te dizendo que era melhor não nos encontrarmos mais, que era melhor não nos enconstarmos mais. Eu sabia que você não aceitaria e que essa porcaria de cosmos que nos ouviu num maldito dia qualquer faria com toda a força que eu tive pra dizer não fosse vã. Eu sabia.
Aí você volta, trazendo chuva pra domingo, me odiando em todos os graus possíveis. A mesma infantilidade de sempre que eu tentava ignorar e passar por cima. Agora o quê? Você vai gritar pro infinito e dizer que eu prometi? E você? Lembra das promessas que fez e não cumpriu?
Bom, minha vez... Se quer escândalo vamos lá: "NÃO MUNDO! EU NÃO QUERO MAIS! NÃO COSMOS IDIOTA, EU QUERO IR EMBORA, EU QUERO QUE ISSO ACABE E NÃO QUERO QUE VOLTE!" Eu sei, eu disse que volaria, mas desisti, voltei atrás. Não consigo mais voltar, não consigo mais querer.
Era amor? Pode ser, mas amor também acaba e não consigo mais sentir, nem forçar.
Eu consegui dizer não, essa revolta é por ter finalmente percebido que eu fui? Ou por orgulho de não conseguir o que você sempre teve?
Sempre... Essa palavra não existe mais. Acabou, isso é tudo.

domingo, 3 de outubro de 2010

O resto do fim.

O que restou de uma televisão quebrada numa brincadeira de bala, de um celular assassinado depois de cair escada abaixo devido a uma crise de ciúme. Restou um sorriso mal dado, uma briga mal feita, uma palavra cortada.
Restou saudade que não é sentida, telefonema fora de hora e perguntas sem reposta. Restou as reticências em uma história que nunca teve fim, que nunca vai saber ter um fim. Restou uma mensagem de fim de tarde e um abraço apertado, um soluço desesperado e um pedido de desculpa.
A velha incerteza de tudo que sempre restou.
É quando o resto torna-se tão maior que a gente percebe que não dá mais, que não conclui, que histórias precisam de finais sejam felizes ou não. E a gente se encontra e nada surge, nada flui. Nem por um segundo, como se fossemos obrigados pelos nossos corações que antes batiam em ritmos iguais a sentirmos a mesma coisa, olha que surpresa! O sentimento acabou, nós acabamos.
Seguir com essa certeza é bem mais incerto do que a dúvida de um sentimento.
E depois de passar tanto tempo sozinha na chuva, percebi que passá-la de novo do seu lado não faz tanto sentido. Gosto mais de mim.
E agora que depois de tanto tempo, conseguimos enxergar que acabou? Pra onde a gente vai depois? O que a gente sente depois? Quem vai suprir tudo que fomos?
Estamos em nosso tempo, nos lugares diferentes. Difícil aceitar que as coisas que você acha que seriam eternas se desmancham, difícil entender que sentimentos acabam e que vai restar vazio quando você não souber o que sentir.
Então é isso? A gente se vê, sem precisar se ligar, sem precisar desejar. Nos encontramos por aí, quando der, como der. Acabou tudo isso e foi só o que restou.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Faz tanta falta o seu amor.


Ainda danço as mesmas músicas do mesmo jeito, meio desengonçada, com aqueles mesmos passos, com aquela mesma cara.
Ainda cubro os olhos com as mãos em filmes apavorantes de terror e fico uma noite inteira sem dormir com medo de alguma coisa do filme acontecer comigo.
Ainda subo as escadas tropeçando em todos os degraus e fico olhando o corrimão me perguntando: “Desço ou não desço?”, ninguém me empurra.
Ainda colo os retratos em cartolinas e finjo que são trabalhos escolares e fico apresentando pras minhas bonecas (que agora nem existem mais) cada pessoa importante, como se esse fosse o meu trabalho que mais valasse nota: as pessoas da minha vida.
Ainda atravesso a rua quando eu vejo um pombo e passo vergonha (dessa vez sozinha) quando voa algum na minha direção inesperadamente, continuo apavorada com as mesmas coisas bestas de sempre.
Voltei a fazer dois baldes de pipoca quando sei que vou ter que dividi-las e sempre compro a maior do cinema, mesmo quando eu vou sozinha e na maioria das vezes sempre sobra, mas sabe como é? Pipoca é sagrada.
Ainda cumprimento algumas pessoas com o meu famoso “bu” e espero a resposta de “ah!”, mas elas nunca dão. Na maioria das vezes penso que as pessoas me vêem meio louca, meio fora do esquadro. Isso nunca foi um problema muito grande no nosso ex esquadro.
Ainda falo sem parar quando eu estou nervosa, assuntos desconexos só para não pensar naquilo que eu deveria.
Ainda faço lista de festa de aniversário e risco todas as pessoas, por pura maldade. Faço tudo isso sozinha.
Corro na chuva só pra voltar pra casa e fingir que alguém fala “não vai ficar doente”, eu nem fico mais doente há tempos, sei lá, aprendi a me virar.
Ainda fico imaginando se eu conseguiria ficar em pé no teto, vira e mexe eu tento e a parede fica marcada com meu pé, só que ninguém briga e as marcas ficam lá até eu ter coragem de tirá-las e tentar de novo. A freqüência tem diminuído, tenho medo do que vem sendo colocando no lugar desses momentos.
Minha perna não cabe mais no vão da porta, não dá pra subir. Nem tento mais... Menos um.
Minha cama por maior que seja agora, não suporta que eu fique tentando dar cambalhotas e eu me esqueci como se faz, esqueci até que eu tinha medo de quebrar o pescoço. Esqueci de muita coisa.
Desaprendi a tocar flauta e você nunca mais vai dizer o quanto eu tocava bem (mesmo que eu sempre tenha sido a mais desafinada).
Minha cama quase sempre fica arrumada, tirando as semanas de prova. Nada de toalha em cima, nada de sapatos em baixo, nada de roupas espalhadas. Tudo direitinho aprendi bem.
Tem sons que nem tocam mais, o rádio, por exemplo, nunca fica sintonizado na 96 enquanto eu fico  gritando: “Não quero ir hoje”, pra mais uma aula de ballet ou pro curso de inglês.
Ninguém me leva pra faculdade agora, tenho que ir com as minhas próprias pernas, sem nem esperar um beijo mesmo quando o meu maior mau humor pede por silêncio.
Continuo deixando muitas coisas pra última hora, mas ninguém me diz a quão aliviada eu ficaria se começasse a fazer tudo antes. Eu sempre tenho que ouvir isso de mim mesma.
Muita coisa continua a mesma, ainda sou menina que precisa de cuidados especiais, de atenção e que fica inventando mil desculpas pra sentir saudade. Ainda perco todos os meus compromissos importantes só por medo de me frustrar, ainda deixo de me envolver com pessoas excepcionais, só por medo de não me enquadrar. Continuo a mesma medrosa que liga a luz do abajur no meio da  noite. Continuo a mesma medrosa que escuta o tic tac do relógio e acha que é o lobo mau que ta caminhando na direção do meu quarto.
Mas é como se tudo que ainda existisse só pudesse ser meu quando eu estou com você, como se tudo que eu sou e tudo que eu ainda guardo, é tudo que você fez com que eu fosse. Faz tanta falta tudo que eu podia sendo com você.