De novo, eu e meu caderninho rosa choque se destoando de todas as pessoas concentradas demais pra prestarem atenção na gente. Sorte a nossa, nem queríamos ser reparados, pra falar a verdade, queríamos ser iguais a todos os olhos fixados em outras palavras, queríamos nos interessar mais e anotar coisas mais pertinentes, queríamos não mais nos sentir distintos naquele meio. Queríamos ser brancos e pretos, ou uma simples prancheta que segura e demonstra segurança.
Éramos rosa demais, pequenos demais e escritos com bobagens demais. Tudo em exagero exatamente como pretendíamos, só pra não sermos notados.
Procurei algum olhar diferente pra me juntar ninguém estava realmente interessado em dividir minhas idéias brilhantes de lua cheia e chuva. Ninguém estava realmente interessado em nada, só fingiam se concentrar, mas era nítido que eles estavam em algum lugar bem distante que não ali naquela sala, exatamente como eu. Enquanto a pessoa em frente falava sobre assuntos que eu nunca vou conseguir me lembrar, mas que mesmo assim entrarão para o meu currículo que mais tarde dirá algo sobre quem sou eu. Grande coisa! Parabéns, você tem um diploma.
Muita coisa ficou vazia nesse tempo, muita coisa sem entender os motivos, muitas cartas soltas e palavras vãs, muitos problemas alheios para resolver e muitos meus jogados em gavetas trancadas pra nunca mais serem lembrados. Já viu como os fantasmas têm uma facilidade magnífica de surgirem quando você menos espera? E te assustarem até você morrer, como eles. Meus problemas são meus fantasmas, tranco dentro de gavetas sujas e eles dão um jeito de aparecer sempre, abertos e limpos como dá primeira vez que vieram pra mim e não foram bem quistos.
Anotei alguma coisa na minha cadernetinha e fiquei prestando atenção em qualquer coisa, só pra ter algo pra contar na ligação de mais tarde, nada que realmente eu possa dizer de interessante, só pra estender o assunto e ficar mais perto, só pra participar do dia-a-dia e ter alguém comigo no meu dia-a-dia.
Consegui fazer perguntas, eu sempre gosto de participar dessas coisas só pra aumentar um pouco daquilo que eu acho que eu tenho e que me falta tanto, algo como inflar o ego com conhecimentos extras de coisas que você nunca vai usar numa conversa casual, de coisas que você nunca vai contar pros seus filhos, conhecimentos seus que nunca vão servir de nada, mas que eu insisto em adquirir porque, de alguma forma, isso faz com que eu seja mais completa, com que tenha mais valor. Parece piada, mas não é.
Uma dinâmica de grupo, que maravilha! Guardei minha cadernetinha rosa choque e me preparei para essa maravilhosa dinâmica de grupo, que por mais diferente das outras mis que eu já fiz em toda a minha vida, parecem que são exatamente iguais. Não sei por qual motivo as pessoas acham que fazendo alguma coisa assim saberão sou apta para algum trabalho, posição ou qualquer outra coisa. Não é através de uma dinâmica que se conhece alguém, mas ok, é a minha profissão quem pode contestar? Com certeza não eu.
Depois de duas horas sentada e levantando esporadicamente pra alguma dinâmica imbecil na qual eu me fingi muito interessada e disposta acabou toda a palhaçada que deveria ser meu divertimento da semana, ando me divertindo com tantas coisas idiotas que tenho tido medo de mim mesma, nada como um dia acadêmico que eu possa me sentir alguém importante.
Astrologia confirmada, personalidade confirmada. E agora? É isso que eu vou ser? Alguém que se esforça pra ser importante demais intelectualmente? É só isso? Isso é muita coisa, é, é muita coisa pra uma conversa de 15 minutos no final de um dia trancada no meu quarto sem fazer nada que não seja pensar “O que eu realmente estou procurando nesse lugar?”. Muita coisa pra quem quer sair correndo e se sentir pertencente, muita coisa pra quem tenta todo santo dia ser alguém diferente, mudar as coisas que nunca foram minhas, transformar todo esse espaço que nunca foi meu, acabar com esses meus medos idiotas que me fazem ficar uma hora e quinze minutos dentro de uma sala com a minha analista tendo que ouvir todos as minhas frustrações imbecis de como eu preciso não temer as coisas mais idiotas do mundo e como eu preciso confiar mais em mim e essas coisas que você mesma me diz nessas nossas conversas de fim de tarde deitadas na cama, ou na cozinha tomando nosso eterno café.
Eu sinto falta disso, sabe? Dessa cumplicidade de 17 anos, sinto falta de ser criança de novo e de poder fazer tudo sem me preocupar, sinto falta de não ter que acordar pensando que eu preciso de um trabalho ou que preciso ser uma intelectual com um diploma na mão. Sinto falta da gente e um final de semana nunca é o suficiente pra gente, sinto falta de tudo, até dela e isso você sabe muito bem, porque eu nunca escondi, nem nas festas, nem nas datas e principalmente agora, acho que deveríamos acabar com os segundos dias de todos os meses, pelo menos se eu soubesse que durante esses dias eu só quisesse uma presença.
E no final das contas, desse dia cheio de coisas interessantíssimas, de pessoas fingidas e de um mar de gente que nunca me viu na vida tentando entrar nos meus problemas que eu nunca vou contar e que sempre vem me assombrar tirando o sono que eu tenho de sobra numa noite mal dormida, tremendo de medo de um sonho desfeito. No final das contas somos só eu e meu caderninho rosa choque tentando não ser ninguém, cheio de anotações importantes demais, com umas folhas rosas sem escritas implorando pra serem lineares, a gente nunca consegue e no final das contas, no final de tudo isso a graça é viver tentando né? Então, estamos aqui, tentando preencher todas essas folhas coloridas de ardes os olhos e ser alguém diferente e todo o resto.