domingo, 30 de maio de 2010

Do cais, o mar com a menina.

O meio porto bêbado em seus trajes masculinos, esperava o barco chegar, ansioso em sua instância difusa. O mar agitado mergulhava suas ondas nas madeiras do cais.
A menina triste, acalmava suas lágrimas e batia as pernas incansavelmente tentando descansar suas aflições.
O cais desprovido de qualquer arquitetura moderna, desmerecido de olhar fitava o horizonte ansiava por um barulho. Algo que o fizesse crer que o barco chegava, que as pessoas andariam, que os risos viveriam, que a noite teria sentido.
O mar curava a ressaca e se embriagava na noite escura e vadia.
A menina se emancipava dos medos, se calava nos choros e se acoplava ao cais.
Que envelheceu, que faliu, que empodreceu com a água. Deixou de ser porto, quando não mais chegavam. E de tanto esperar se desfez.
O mar chorava, a menina batia, o cais se desfazia.
O mar batia, a menina se desfazia, o cais batia.
As vidas se encruzilharam nas mesmas estradas irregulares, nos encontros inesperados da escuridão interior.
Enquanto o mar se apavorava, a menina se despia, o cais tremia, cansada de esperar, a menina pulou o mar vibrou e o cais calou.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Mensalmente engANadOS.

Sirvam-se de anos, de meses, planos. A gente se engana em cada esquina, depois de se fascinar com o outro lado da rua. Tão perto e ao mesmo tempo inalcansável, fica aquela esperança distante de chegar até lá, enquanto os olhos ficam atônitos, buscando.

Sirvam-se de anos, de meses, planos. Até que uma hora tudo vai embora, tudo se detona e perder é quase encontrar, parar é quase continuar. Desistir é ser forte.

Causa essa angústia quando a brincadeira dói, quando a força é bruta e o riso é lágrima triste, aflita! Dói essa lombeira de um almoço mal comido, de uma cama mal dormida, de um filho pra criar.
Até que ficam os restos da visão dos que pararam na esquina, servidos de tanto mais. Punidos de muito menos, cheios, fartos. Os ângulos escusos, transparecendo como os raios de Sol na manhã nublada. As sortes, novelas em fins de semana. Perfeitos do outro lado da rua, servida de planos, danos, enganos.
Implicitos em meses que foram, que virão e que não serão, essa mágoa guardada na barriga que pede, esse sorriso torto do menino que não vê. Essa meia tigela que é tão carente que chega a ser quase nada.
E os anos, prolongados meses duradouros planos. Os anos que passam com uma rapidez morta, que uma fase torta e esses sonhos perdidos.

Serviços mal feitos, todos sem juízo. Vão embora cedo demais, fugindo das responsabilidades. Serviços casandos, imperfeitos, criados diante do mundo errado. E os olhos perdidos do  outro lado da rua, na esquina, sentados procurando, vagando. Mortos.
 

segunda-feira, 24 de maio de 2010

?

Digo sim, que tenho esse medo estranho de me deixar pra depois. De ficar e perder, partir de mim nessa condição irrecusável de nada.
Consequência dos meus atos pensados demais, das medidas exatas e das gotas amarelas do líquido injetado.
Todos os olhos que sumiram do nosso pecado pessoal e os desejos que consomem a falha dos passos distintos. Éramos um só corpo, na mesma esfera de uma figura arcaica e moderna.
Se tivesse a quem culpar, nesse minuto, tocaria as pedras como violão desafinado e mandaria o mundo parar e observar a dor. Daqui, de lá e dos pedaços transformados em pós, quase liquidados em uma ampola. Fincando nas veias que bombam um sentimento, repetitivo e falido.
E agora que as lembranças viraram notas, que o canto dos passáros não acorda, fica com o vazio do quarto nas noites frias do verão fora de época.
Incomum ao que foi prometido, a vida que imaginam e os sonhos nos fundos das garrafas tacados no mar.
Poucos passos destruidores. Poucas palavras enumeradas em sílabas cortantes.
Perto de qualquer lugar distante o suficiente para ser lembrado.

terça-feira, 18 de maio de 2010

dica.

É só uma exposição de uma coisa que eu acho importante e que muitas pessoas esqueceram. Quer dizer, a maioria até sabe, só não aplica.
Ser educado implica em usar as palavras mágicas que nos foram ensinadas não só quando nos convém, significa tratar a outra pessoa do lado de lá ou do lado de cá, independente das turbulências que existam dentro de nós, da maneira mais sútil possível. Porque, assim como nós, elas são pessoas e sentem, sentem tanto a ponto de se cansarem de sentir.
E um dia, elas desistem, desistem de nós, por simplesmente terem se cansado de esperar uma palavra bondosa, de serem reflexo de um tratamento inadequado.
Acho que as pessoas deveriam parar de olhar para seus próprios umbigos e começarem a perceber que a vida quando vivida individualmente pode até aparentar ser uma vida perfeita, sei disso porque tenho essa concepção falha de felicidade comigo. Na minha individualidade ninguém me fere, ninguém me alcança, ninguém me ameaça. Vivi e ainda vivo muitas vezes partes de mim nesse individual, esse meu esconderijo me proporciona menos dor, mais certeza. No entanto, ser sempre eu, me tornou incapaz, me fez sentir faltar de tantas pequenas coisas que o outro poderia me trazer e da minha maneira, mesmo que sem sair totalmente da toca, voltei ao mundo, de portas abertas e ele me esperou.
Tudo bem, acho até que ele foi bom demais comigo. Mas não é assim sempre, as pessoas não ficam paradas esperando, tentando e levando patadas consecutivas e continuam, enquanto sofrem por essas.
Acredito que todo mundo deveria sair dessa coisa de eu, eu, eu e começar a olhar as pessoas em sua volta. Não como forma poética, a fim de um dia escreverem coisas bonitas, sentidas e etc. Mas como forma de relacionamento, a fim de construir relacionamentos duradouros, fortes. E esses são feitos mútuos, infelizmente quando só um lado trabalha para a realização, ele cai.
É isso que queria colocar, que no lugar de se sentirem seres supremos por qualquer coisa que seja, ou de colocarem as pessoas em posições inferiores, elas pensassem as pessoas como seres de carne, osso e sentimentos. As coisas ficariam mais fáceis, para todos os lados participantes de um relacionamento.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

- Redirecionado -

Já não sabia mais se era o medo ou o amor que me movia.
Como se fossem a mesma coisa, não importava descobrir, ambos me levavam a você e eu seguia.
A dor ficou para trás, perdida nessas ondas de raiva que me consumiam por sentir todos os tremores do meu corpo quando o assunto era você. Passei a senti-los como o amor e tudo ficou mais claro, era simples esconder isso, mesmo que transparecesse.
O tempo passado e a esperança de que as frieiras diminuissem foi embora, era como se você as abrisse sempre que percebesse que elas iam se fechando, fazendo-se presente, tanto quanto eu queria sua ausência desnecessária.
Não admira que o quer que fosse me levasse a você, se o sentimento era só você que trazia a quem mais eu iria recorrer.
E batendo aqui, como as últimas palavras e a sua imagem na minha cabeça rodando comigo, eu fui. Não me precisa me chamar, porque mesmo sem saber, alguma coisa sempre me leva a você.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Da falta que sente.

Acho que algumas coisas são meio óbvias aqui, quer dizer, eu sentada no sofá esperando alguma coisa olhando para a porta, sabendo que a fechadura não vai fazer aquele barulho e que a maçaneta não vai girar. Minha expressão possivelmente é meio vazia, assim como o ambiente em minha volta, gostaria de tirar uma foto, mas tenho medo de me ver e me escondo, aqui, sentada e sem expressão, ausente de mim, sentindo a ausência de você.
Aquele cheiro que tinha a pipoca que a gente deixava no microondas e como você sempre brigava comigo por deixar a inhaca na cozinha, eu realmente não ligava e às vezes fazia só pra irritar.
A manta do sofá que eu com um toque, derrubava no chão e as piadas que você cismava em fazer sobre eu não ter coordenação nem para me sentar.
O beijo da manhã com gosto de café e o café me esperandO.
Sabe o que tem aqui agora, eu, as poeiras que hoje fiz questão de limpar. Então, sou só eu, eu e minhas lembranças malucas de saudade, produzidas pela representação que vocês tem para mim.
Um sofá produtor de livros, almofadas, uma mesa e uma televisão. Um quarto, uma cama e o vazio da falta.
A vontade de voltar, de cantar, de estar.
É saudade do lar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

per ter ser.

Acordei com essa vontade maluca de me desvincular de todas as coisas que me faziam pertencente. Perdi um pouco essa mania do ser humano de pertencer, acho que meio que deixei de ser humana, passei a ser coisa.
A coisa atrás do armário, da porta, da janela. A coisa que respira milagrosamente e ainda é coisa.
Acho que me confundi nessas ilustrações de perfeição, por isso aderi uma nova forma, onde só eu posso me denominar, só eu sei minhas funções, sem essa coisa doentia de pertencer.
Pertencer dói e te tira todo o domínimo sobre si, mesmo quando você acha que não.
Mas a questão do reconhecimento, acho que sempre pega porque nunca sabemos quem somos, mesmo que busquemos ser alguém. Mesmo que eu me diga coisa, se eu não for coisa pra outra pessoa, eu não serei coisa para ela. Não que eu me importe, é só representativo demais, perceptivo demais.
E eu não tenho tempo para isso, pertencer já me encubiu tempo demais, manias demais, dor demais. Preciso ser minha na medida que não sou de mais ninguém, não sei me dividir.
Acho que nem coisa sou, mas acho demais e isso tira meu tempo, perder tempo é pertencer à ele e eu desisto de pertencer.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Noeiuscar.

Se é que existe isso, é ai que eu estou. Buscando esse termo que o mundo todo me doou como felicidade, querendo a capacidade das poucas mentes que seguem na busca de algo maior que eu. É quase fascinante, mas no meio do caminho sempre tem um des, um mas, um talvez.
Mas a busca continua, pela coisa que existe na cabeça deles que estão na minha frente e dos que estão atrás de mim, vamos em sequência transformar o sentido disso.
Engraçado que assim, do nada, alguém que não procurava me encotrou e me perguntou do que eu estava atrás e eu fiquei olhando para ele e pra mim, como se estivesse em um espelho e não respondi, continuei a procurar.
É que quando a gente sabe o que procura, perde-se todo o mistério de buscar por alguma coisa e eu preferi não pensar, não tirar minha graça de questão prioritária. E continuei ali, atrás de uns, seguida por outros que gostam de caçar, não na importância do objeto, mas na singularidade da caça.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Trinta dias.

É que a manhã tá acendendo e a saudade tá batendo e você não tá aqui.
É que o carro tá lá fora e a criança já subiu as escadas pra te ver.
É que o quarto tá vazio e ninguém soube dizer se você vai voltar.
É que o mês já chegou e você não voltou e eu não sei como ficar.
É que o dia tá acabando e a saudade continua e eu não sei fazer parar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Vida

As paredes se moviam, me senti um pouco embriagada do medo, talvez isso fizesse o teto girar, sei que ele não parava nem por um segundo de pular em cima da minha cabeça atormentada.
Do outro lado uma porta acizentada chamava a atenção e o medo de ir até ela ficava perdido no movimento das paredes e nos giros do teto, tentei me concentrar por alguns segundos até de fato me levantar e caminhar até a porta. Tentei afugentar meu medo por trás das palavras que sairam com dificuldade, mas foram corajosas. Voltei lá, aos 10, a semana que me fez conhecer todo o mundo de novidade que seria o meu mundo de pavor.
Nem na concepção de tranquilidade criada pela minha mente as paredes pararam de entrar em convulsão, elas estavam mais enlouquecidas do que eu. Fizemos uma roda, como aquelas que fazem em festas juninas e ela me rodou, me embalou e me continuou me desfazendo.
Numa embriaguez fajuta morri dentro de mim, de medo, de pavor, de calma. Consegui uma noite, as outras eram mistérios e os traumas eram tão vivos e óbvios que já não havia como contê-los.
E nessa parte, quando deveria ter acabado ou nem começado aos 10, recomeçou, voltou e continua aqui.