sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dora


Eu não me via, abri a porta do armário com os espelhos gigantes, eu não queria me ver.
Não sabia exatamente o quê, mas algo acontecia... Era uma daquelas semanas em que a cama raramente era arrumada e sempre muita cheia de papéis antigos que hoje não signifcam nada, o que realmente me interessava havia sumido... Meu cuidado exagerado com as minhas coisas tem exatamente essa conseqüência: Perco coisas importantes com freqüências e quando digo coisas, também me refiro a pessoas. Não tenho uma capacidade forte em manter um laço por muito tempo, embora tenha laços que não se quebraram até hoje, a maioria deles eu arrumo uma maneira de destruir, não importa como.
Acendi o primeiro cigarro enquanto lia o primeiro texto dos muitos que me acompanhariam na noite, não era uma noite em que eu passaria a madrugada lendo, mas era como eu queria que fosse. Não satisfeita fui até a janela fumar meu cigarro e mostrar pro mundo inteiro que eu fumava um cigarro.
As pessoas passavam e não me olhavam,nenhuma delas, todas muitas preocupadas com suas diárias decisões e eu que acabara de tomar a primeira da minha vida não sabia como lidar, sempre achei que pudessem resolver tudo pra mim, eu era gente grande e não sabia como funcionar a partir desse título. Os carros passavam e buzinavam e eu de forma neurótica arquitetei um belo cenário de suicídio enquanto o cigarro ia me matando aos poucos, sem nem precisar de uma imagem pré meditada.
O frio era exatamente como eu desejava, era exatamente o frio que vinha dentro de mim e o externo se mesclava com o interno enquanto eu me mesclava com tudo. Gritei por ajuda e disse da janela que me jogaria, ninguém olhou, eu continuava no mesmo lugar e ninguém me olhou. Ninguém me proibiu, ninguém me alertou, ninguém me segurou. Eu estava aos pouquinhos fazendo a cena mais ridícula da minha vida.
Eu tive certeza do quão ridícula eu era, ali em carne viva doendo cada pessoa a mostra, sangrando as muitas dificuldades que eu sempre tampei. Eu não era eu. Experimentei fechar os olhos e a fumaça do cigarro me fez perder o ar, fiquei sufocada comigo mesmo e gostei da sensação.Tonta de mim, voltei ao texto que me esperava no mesmo lugar.
Em algum momento me perdi, não soube quem eu era e tremendo minhas mãos pediram por socorro, mais uma vez ninguém veio.
Acendi o segundo cigarro, mas desse nada fumei, fiquei olhando enquanto ele queimava e imaginando que eu me queimava aos poucos, que eu me torturava de forma a ir acabando assim como aquele cigarro acabava. Joguei-o na água e a tontura voltou, o cheiro e tudo que eu não queria reconhecer.
Pensei em maneiras mis de finalizar tudo aquilo e nada era realmente válido, eu me sentia ridícula por não ser capaz de me encarar e as portas continuavam abertas.Eu tenho medo de mim.
Tomei minha primeira decisão e nem assim me satisfaço com o que sou e com o que construo, o monstro que aqui dentro permanece escala degraus cada vez menores e chega atormentando e dizendo todas as coisas pertencentes da bobeira da outra. Eu não tenho bobeira, eu conseguia repetir os segundos que não eram contados. Eu não tinha tempo.
Cada minuto do meu dia era contado e ocupado, eu não pensava em mim, eu nem me reconhecia. Não sabia mais o que queria e não me via em lugar nenhum.
Precisei de um outro cigarro, que inexistente me fez jogar os papéis no chão e procurar por alguma coisa que eu não fazia ideia do quê. Ainda procuro.
Eu, tonta de mim, inerte ao que não me pertence, pedindo socorro enquanto tudo rodava. Pensei no movimento das pessoas que passavam na janela.
Me intitulei Dora, Freud soube explicá-la, sou minha Dora, sou histérica em ser e carne e a carne continuava mostrando o quão viva eu estava.
Os textos do meu lado pedindo atenção e eu olhando o isqueiro pensando em queimá-los, ameacei uma, duas, três vezes e desisti. Não era hora de tomar decisões, eu agora era a Dora criança, que não tinha responsabilidades.
Crescer dói, Dora... D-o-r(a).