domingo, 13 de julho de 2014

Personagens

Um bilhete dentro da minha pasta branca que nunca deveria ter sido reaberta, algumas coisas simplesmente são feitas para momentos, não para lembranças. A pasta branca coberta por fotos era uma delas.
Dentro uns textos muito mal cuidados que por muitas vezes me completaram, muitas princesas de blusas feias que deveriam ser bonitas, muitas Beatrizes, Julietas e Gabrielas que ficam com Raul e que se viram pra fazer cenas de última hora. Dalva prostituta, Dora menina da rua, alguém com uma camisa de força que não controla suas próprias emoções um auto-retrato do que eu representava naquela época. Inveja, ira, luxúria e outros pecados que eu representei com a vontade de ser tanto aquelas pessoas que fez com a platéia aplaudisse de pé.
Um sorriso na brincadeira de verdade ou consequência, as lágrimas ao assistir Tomates verdes fritos e fazer da ficção a minha realidade.
Fui muitas e muitas vezes quis ser eu, quando fui Gabriela não continuei, era eu que tinha mudado do menino nerdizinho que sentava na primeira fileira de frente pra professora, para o maconheiro que matava aula em frente a escola. Era eu que queria viajar sozinha e não mais a barbie. Eu cresci sendo personagens e me perdi nas verdades que eles diziam.
Beatriz queria tanto o amor de outro que não conseguia se conter quando este a amava, em sátiras fui tão ridicularizada por não saber receber o amor. Beatriz ou Gabriela? Nenhuma delas soube como ser amada.
A primeira vez que me pediram o nome assinado, que me admiraram por algo escrito por outra pessoa e interpretado por mim, os aplausos, os rostos conhecidos, os desconhecidos, todos emocionados pelo que eu consegui transmitir.
A pasta branca cheia de fotos memoráveis e as letrinhas cheias de personagens com suas diversidades, as mil maneiras que eu pude ser sendo simplesmente eu.