Já sei o quanto isso não vai durar. Sei o tempo que não foi e o que nunca vai ser. Sei que muita coisa inventada pra ser verdade, acabou se misturando na invenção do que a gente não teve, sei o tempo todo que fui alguém que quis, alguém que tentou, alguém que se embolou nas incessantes vontades de sempre ter você por perto. Ou alguém por perto.
Fui deixando as coisas passarem e elas passaram, demoraram um tempo infinito que parecia que se arrastava nos dias em que o que eu mais queria era acordar com você comigo. Fui me levando a lugares que nunca me completaram, pelo simples fato de não suportar te enxergar em lugares que seriam completos se estivéssemos juntos. Me sentia cada vez menor, sempre diminuída te exaltando nesse pedestal que nunca foi seu e que você nunca pediu pra que fosse. Você nunca pediu nada de mim, embora tudo que eu possuísse em algum momento, fosse todo seu.
Fui obrigada a me abster de certezas que sempre se migravam em incertezas constantes, calei as ligações que nunca chamaram, os pedidos, os sussurros e as palavras que nunca vieram, que ficaram sempre pra depois, pra um futuro que não chegou.
Fico o tempo inteiro pensando no tempo que perdi desejando tanto e perco um tempo maior ainda nessa culpa de sempre te desculpar de erros que você nunca cometeu. Sinto os nós embolados nos dias que não passamos juntos, nas manhãs que eu acordei sozinha e nos sorrisos que eu não compartilhei.
Ainda é estranho, já que a vida que eu vinha vivendo era de exclusividade sua. Retive todos os meus sentimentos unificando-os à você, as coisas só poderiam ser certas a partir de você e não era a primeira vez que eu consegui fazer isso com alguém, dar uma importância tão grande à alguém que não queria ser importante. Mas histórias não se repetem e foi difícil conseguir encaixar todos os pontos em seus devidos lugares, foi difícil entender as coisas que antes eram avulsas, quase impossível unir todas as peças do quebra-cabeça quebrado.
Mas agora é mais fácil, já é hora de distinguir histórias, rever sentimentos e fazer as coisas por mim. É hora de soltar todo esse vinculo que eu criei em dias inexistentes, toda essa saudade inoportuna do “e se”, toda essa vontade de ter sido, de fazer, de completar.
É por isso que eu vou desistindo, sem medo ou vergonha, sem tempo de duração ou prazo de validade. Resolvi desligar o som que tocava no meu rádio repetidas vezes e nunca me dizia nada, resolvi resgatar as coisas que faltavam em mim que não eram trazidas por você.
Ando mais sozinha, mais minha, mais inteira. Como se tudo que eu precisasse era desistir pra me sentir corajosa, não que não vá fazer falta perder todos esses minutos que eu perdia, esperar incansavelmente pelas coisas que você não trouxe, não que não vá doer te olhar e não sentir, te olhar e não querer ou ter que não querer. É só uma regressão ao ponto em que eu venho me fazendo o bem e não em que alguém precise me ditar essas sensações.
Não é desmerecendo importância, não é desfazendo o que realmente foi, é só desistindo de um futuro impossível, de uma história que não pôde começar. Vou guardar uma memória, uma realidade, a gente espera se ver, ou pelo menos deveria. Com outros olhos mais fracos, com outras certezas e brilhos. Sei que não é, nem se tiver que ser. Não desisto por você, desisto pela parte de mim que não consegue mais.
E não prevejo dor, não espero mais nem de mim, nem de você. Só vou levando assim, sem essas culpas e sonhos, um pouco mais vazia, um pouco mais sozinha, um pouco mais certa.