segunda-feira, 1 de março de 2010

A cidade chorava, explicitando o que por um bom tempo eu tentei esconder.
Ela gritava no meu ouvido com a voz mais aguda que o choro de um cachorro, me pedindo para acompanhá-la nessa difícil tarefa de se mostrar, frustando-se ao redescobrir uma menina que se fazia de fraca, para não mostrar o quão forte poderia ser.
Agora esta menina, mostrava todo o poder que tinha e a cidade chorava por não ter alguém com quem dividir, alguém que entendesse suas lágrimas, ela percebia, cada vez mais, que não nos pertenciamos, éramos simples coadjuvantes em nossas histórias e ser coadjuvante de uns tempos pra cá tem se tornado tão... participativo!
Sabendo que meu lugar não era com ela, resolveu me prender, trouxe-me amores, amigos, sensações jamais experimentadas, liberdade, situações que eu jamais teria experimentado em nenhum outro lugar, se não em seus braços.Não foi o suficiente, ainda me sentia distante, rebelou-se mostrando-me seu pior lado, me colocou medo, como quem disesse que eu deveria estar com ela, para estar protegida.
A partir desse dia, nos tornamos amigas, não nos pertenciamos, mas nos ajudavámos, ela me protegia, sabia que eu não ficaria por muito tempo e que meus sonhos seriam maiores... Eu avisei que não estaria mais por perto e que isso não demoraria, que a distância seria maior do que a esperada, não era só a cidade, ou o estado, eu iria para outro país.Ela me olhou bravamente, numa tentativa frustrada de me entender, sem a menor noção de que eu era a pessoa que ela carregava, mais incapaz de ser entendida e percebendo isso, refez seus atos, trouxe-me mais um pouco de tudo aquilo que ela achava que eu precisava, amores, amigos, tentações, experiências, não conseguiu, nem com os terrores afirmando que ela me protegeria se eu permanecesse, se eu fosse dela.
Hoje, a cidade chora, chora com medo, tanto quanto o medo que eu venho sentindo, chora com dor, com um tamanho imensurável, incalculável, chora de raiva, chora de nervoso, chora por chorar, por ter cansado de ser forte por tanto tempo, por ter se encubido de tantas atividades e pessoas, tentando mostrar-lhes que ela também sente, que ela também pode.As pessoas não percebem que ela chora ou porque isso acontece, elas simplesmente estão ocupadas demais com os seus motivos pra chorar, a cidade implora por atenção!
E depois de tantas tentativas, ela finalmente percebeu que não precisávamos nos pertencer para que eu a compreendesse, para que nos tornassemos protagonistas e fizessemos diferença em nossas histórias, talvez eu já não tivesse necessidade de mostrar ao mundo que eu chorava, talvez eu simplesmente precisasse que ela mostrasse isso e agora, era o suficiente.