Quando ela chegou abrindo a porta eu fiquei com raiva, muita raiva. Sabia que ela era quem mais estava sofrendo e eu deveria ser forte para ampará-la. Mas eu estava tão inerte à minha própria desilusão que criei um muro que bloqueou minha visão para qualquer outro sentimento transparecido.
Não argumentei, grunhindo algumas palavras a fim de mostrar que pelo menos eu ainda estava viva (e sabe-se lá quão bom àquela hora isso poderia ser). Ela saiu, eu sabia que voltaria, desistiu de me fazer levantar, ao contrário de mim aceitou e reconheceu meu sofrimento, ela era digna de aplausos. A pessoa mais incrível que um dia cruzara meu caminho. Quando ela fechou a porta eu fiquei imaginando a dor dela, não enfatizando a dor que ela realmente estava sentindo, mas imaginando como eu estaria em seu lugar, como eu faria se um dia ela simplesmente partisse. Meu coração parou por um segundo e depois eu entendi, era exatamente assim que eu me sentiria se isso acontecesse.
Ela era forte, a mais forte que eu conhecera nesta vida e se um dia a força dela acabasse a minha provavelmente iria junto. E a figura mais perfeita, com todos os seus defeitos e ela sofria, sofria tanto que tentava esconder de mim de uma maneira de poupar todo o sofrimento que também me consumia. E a imagem dela indo embora veio de novo, mais uma vez meu coração parou, é assim que a gente morre, quando o coração não vê mais sentido de bater, o dela batia ainda por mim e enquanto isso acontecesse o meu estaria batendo por ela, não numa reciprocidade obrigatória, mas resumida como amor e eu amava tanto que chegava a duvidar se a dor que eu estava sentindo era maior por vê-la sofrendo, não importava muito, a dor agora tinha o tamanho proporcional ao amor que eu sentia e este era imensurável.