As coisas começaram a vir cortadas pra mim, todas elas desde que eu mesma tinha me cortado dividindo os pequenos pedaços de mim. Vinham pela metade, sem um começo ou um fim, peças de um quebra cabeça sem figura. Peças que deveriam se completar e ter as medidas certas para isso, ao contrário, eram figuras desfoques, sem forma.
Quando eu fechava os olhos eu podia concluir meu quebra-cabeça nas mais diversas figuras bonitas, mas era só abri-los que se tornavam vagos. Nos meus pensamentos, sempre de olhos fechados, eu também era inteira, cheia de muitos pequenos e grandes pedaços que me montavam numa figura esplendida, não no sentido físico, no que só pessoas de olhos fechados (literalmente ou não) enxergam.
Meus pedaços iam caindo no chão, ficando presos nos cantos das salas, nas praças, nos bancos, se perdiam... Às vezes eram pisoteados, cuspidos e mesmo que já estivessem fora de mim, eu sentia, doía, molhava, irritava, mas eles não eram vistos por essas pessoas, nem que elas estivessem de olhos bem, bem fechados.
Elas tinham quebra-cabeças completos e desfaziam das minhas metades, que já não me deixavam inteira e eu sempre com uma faca, me cortava ainda mais, com cada parte minha se desfazendo como um corpo decapitado por um assassino. Eu era minha própria assassina corajosa de fazer meu quebra-cabeça se desfazer.