Eu não me importo. Não muito, não de verdade, não como queriam que eu me importasse.
Acostumei, porque no final é sempre assim, a gente acaba acostumando. Acostuma com coisas como a cor do cabelo, com o sapato apertado, o trânsito das 17:54 que é sempre o mesmo, nos mesmos lugares e acostuma também com a saudade de alguém, com a razão que esculhamba as portas dizendo que você não pode ligar, que alguém não vai voltar e o que todos os aviões que te fariam encontrar, não vão mais para aquele lugar.
O lugar é o mesmo, a sensação de querer chegar é a mesma, digo, segundo a geografia e a arquitetura também, continua a mesma. Mas é uma sensação tenebrosa porque ainda que seja o mesmo lugar, não é aquele com que eu estava a ir. Não é a mesma pessoa que me esperava com um sorriso enlouquecedor chegar, não é o mesmo tom de voz no telefone que me acorda perguntando por quanto tempo mais eu vou demorar, não são as nuvens que tem as formas mais românticas enquanto eu imagino como vai ser.
O lugar é o mesmo pra muitas pessoas, que chegam, passeiam, trabalham, mas pra gente não. Pelo menos não pra mim. E eu também tive que me acostumar com isso, pousava muitas vezes sem os olhos que me faziam sorrir mesmo depois da turbulência, sonhava muitas vezes com o cheiro que vinha e a saudade aumentava.
E agora eu não me importo, não porque não quero. Mas porque não volta e eu tive que me acostumar a seguir, mesmo quando eu queria me arriscar a voltar.