Não tenho escrito tanta coisa mais, o que me deixa triste e cheia de angústia. Sempre encontrava uma forma bonita de falar de você quando te passava pro papel, você sempre foi um tipo herói moderno, desses que eu estudei há uns três anos e se você estivesse presente, aquele trabalho sobre isso, seria com seu nome na capa. Tão simples.
Até parece que quando eu não escrevo, eu não penso em você. Nos últimos dias minha vida andou um caos, sabe aquela fase em que vivo de textos e livros jogados pela cama, folhas pelo chão e roupas, muitas roupas fora do guarda-roupa por que eu simplesmente vivo sem tempo até pra respirar? Pois é, ela voltou. Adoro quando ela chega alguma coisa que faz com que eu me sinta importante e ocupada, cheia de afazeres, deveres, compromissos. Essa coisa de ir a um congresso fez com que eu me sentisse uma gente grande, importante que só, capaz de chegar aos pés de alguém assim, que nem você.
Congresso é uma coisa grande, cheio de gente interessante falando coisas que muitas vezes eu não entendo nada, coisas que eu desconheço e que não me envergonho em desconhecer, coisas que eu escrevo naquela minha caderneta rosa fosforescente de adolescente que só eu possuo no local e procuro em dicionários e obviamente jogo no Google pra me sentir mais intelectual. Claro que eu nunca falaria com você sobre os congressos que eu fui, mesmo que o último tenha sido inteiramente sobre um assunto que há tempos você quer conversar e que não cabe ao texto, você não se interessaria nem um pouco nas partes que me encantaram por mais de duas horas e que me fizeram babar de vontade de estar sendo uma das palestrantes lá em cima, cheia de si querendo contar vantagem de alguma coisa que outros importantes seres estão tentando absorver. Você provavelmente olharia para minha cara ou passaria a mão no meu cotovelo e diria que esta prestando e faria uma cara de desespero, tentando me beijar quase pedindo um: “Pelo amor de Deus, cala essa boca!”. Você não se interessa, é tão fácil entender.
E a gente nem sempre se interessar pelas mesmas coisas da um ar de saúde nessa nossa não-relação, adoro rir de alguns dos seus gostos, adoro tentar entender o porquê de algumas coisas mexerem com você e não me tocarem, essas coisas fazem com que eu tenha certeza de uma possível completude, que só existe na minha mente que vaga pelos mil lugares que eu gostaria de estar que não em um congresso. Que não em uma cama cercada de livros e textos, que nem buscando um tempo para poder escrever sobre você, queria estar vivendo você.
E nessa minha rotina desfeita de poucas horas e poucos dias, nessa minha vontade imensa de sair de lugares cheios de pessoas que falam coisas que nunca vão ser assuntos nossos, nessa vontade de sair de lugares cheios de letras que ditam coisas que nunca serão lidas por nós, desses lugares infestados de um vazio enorme eu sempre penso em você. Quando a palestrante fala que sei lá é importante para alguma determinada coisa que me lembra você, quando um texto fala um nome engraçado e eu juro que você acharia também. Quando o espaço entre uma leitura e outra fica silencioso demais, eu penso desejo, imagino. E nesse meu pensar, desejar e imaginar, você nunca vem. Dói, sabia?
Porque tudo continua voltado para as mesmas questões, eu continuo sem entender as mesmas coisas, ainda que pareça que tenhamos resolvido todas elas, ainda que não tenhamos que resolver nenhuma delas. Não importa o quão cheio esteja meu dia, não importa em quantos congressos eu vá e o quanto isso me eleve em algum sentido intelectual ou infle o meu ego, por algum motivo besta de orgulho que eu tenho. Falta ainda muita coisa quando você não está, sobra ainda muita coisa quando você vai embora sem avisar.
E eu continuo aqui, esperando o dia acabar em letras pequenas demais para eu conseguir a noite, em palavras que soam tão vãs que me fazem querer ir embora. Tentando preencher com alguma coisa que nunca é você, desconstruindo tudo que eu montei que é seu, te desencaixando de mim. E nunca dá, mesmo quando você vai embora e tudo parece estar cheio, é como se você sempre fosse ficar aqui.