Como de costume, a insônia surgiu por causa do café. Não, café nunca tirou verdadeiramente o meu sono, é só uma desculpa que eu do pra minha incapacidade de lidar com certos fatos que me tiram o sono e me fazem perder por alguns momentos a sensação das pernas, sim, eu fico sacudindo-as na cama só pra não correr o risco de perdê-las. Como quem diz: "Tá, pode fazer o showzinho de vocês aí, mas eu PRECISO de vocês. Então, acordem!".
O café nunca foi um problema pra mim, ele sempre foi minha solução, lá pelas três e meia da tarde ele vem e queima um pouquinho de um jeito doce e amargo que só ele tem, o céu da minha boca e lê um texto chato comigo, ou um interessantíssimo, chora com algum programa bobo na tv ou com um capítulo triste do último livro que eu comprei. Mas não, eu não vou falar do café, mesmo que ele seja inspirador.
Assisti aquele filme super fofo "500 day of Summer" pela terceira ou quarta vez, é uma das únicas comédias românticas que não me fazem chorar, isso faz com que eu me sinta meio superior e auto suficiente, na ideia de que eu não me encaixo em todas as histórias tristes de amor, saio um pouco dessa paranóia de que tudo pode dizer respeito a fatos da minha vida. É um filme que faz com que eu não me sinta e eu gosto de vez ou outra não me sentir.
E fui deitar, feliz porque como no filme tudo tem sua hora e seu tempo. Já fui muito desesperada e com 15 anos achei o fim do mundo descobrir que sentimentos acabavam e que nada seria eternamente meu, mesmo que eu quisesse que fosse. E com 18 eu tive certeza.
Acho que essa lembrança foi o que me tirou o sono (depois do café, claro) e essa coisa de ficar meio sem chão e me sentir sem as pernas faz parte do medo e da incerteza do dia seguinte. Porque assim, você pode até agora estar com o homem da sua vida e amanhã você chega e ele diz que não sente mais nada por você e que precisa ficar sozinho. Dois dias depois você encontra com ele (no seu lugar favorito), com uma loura gostosona que não tem absolutamente nada a ver com ele, nem com você. Falta de respeito do caramba! Aquele ali é o meu lugar, mas nem disso eu tenho controle mais, é público.
O que é realmente engraçado é que eu nunca tive pessoas sinceras que chegassem até mim e dissessem "Olha, eu não gosto de você, some da minha vida!", ou sei lá, qualquer coisa pelo menos um pouco parecida com isso. Ninguém nunca foi verdadeiro comigo, nem nas coisas bonitas de se dizer, nem nas cartas que eu encontrei na minha caixa ontem depois da minha crise de sem sono as 3 e meia da madrugada, nem nos e-mails que eu vasculhei e apaguei, nem em mensagens e nem em momentos. Todo mundo sempre viveu farsas, como eu sei? Sei lá, a gente sabe, né? Não na hora, porque na hora tudo é desculpa certa. Ele tava cansado pra me ver, ou ele tem medo de relacionamentos sérios, ou ele precisa mesmo ficar sozinho, ou pra que continuar ficando agora? Daqui há alguns meses é carnaval (é uma pena que estávamos em julho).
E por aí vai e isso me tira o sono, não porque eu vivi e fico enlouquecida pensando no que poderia ser se pelo menos algum desses nomes que ficam em gavetas que eu tranco e não quero mais olhar, se pelo menos um que fosse tirasse de mim tudo que eu poderia ter de repente eu ficasse acordada pensando no que eu conquistaria para poder ser sugada mais tarde. Mas não, eu nunca fui um filme nem uma comédia romântica, nem um drama, nem nada. Nem mesmo aquelas comédias insuportavelmente chatas de tão forçadas que são, nunca fui. Nem letras de músicas, nem livros, nada. Fico me imaginando ser e isso me motiva a escutar, ver e ler, mas não fui.
E aí acontece que três e meia da madrugada eu revejo tudo que foi escrito em letras e o que foi vivido com a pior sinceridade possível e perco o movimento das pernas, fica complicado sentir qualquer coisa quando tudo que você sentiu transforma-se em algo que nunca foi.
Um café pra me acompanhar na noite de hoje, por favor.