domingo, 12 de setembro de 2010

Vai e vem, não volta.


O que eu fiz o tempo todo foi manter essa distância saudável entre a gente, não porque eu não queria te ver, era óbvio que eu queria te encontrar, mesmo que sem querer num bar e te surpreender com aquela troca de olhar que a gente faz quando fica sem graça demais com nossa presença.
Mas fiz porque cheguei perto demais de te colocar em um espaço meu proibido, quase ultrapassou os sons da leveza do sorriso, quase me fez perder o sono e te procurar em lugares meus. Você quase me tocou e eu me distanciei. Tudo enquanto podia todo o tempo perto e o tempo longe, essa mania de te trazer sempre aqui do lado e te colocar na minha frente.
Mas eu não podia mais, você entende agora que querer e poder são coisas diferentes? Eu queria você perto, aqui do lado, na minha frente, seu sorriso solto em dias sem cor, uma palavra sem validade e as promessas inúmeras que eu cansei de acreditar e esperar que fossem cumpridas. Queria morrer por dentro enquanto todo o meu dia passava em função da sua existência, queria soltar fogos quando você chegasse com pouca vontade e me empurrasse pra dentro, queria mais que tudo ser sua todos os dias. Queria sim te ver e te ter, pertencer, refazer, começar e terminar. Mas não podia, não por mim e não por você.
Tudo é confuso demais e ainda existem limitações que meu corpo precisa cumprir, ainda existem batidas que meu coração precisa fazer e o mundo não pode ser seu, pelo menos não o meu.
E aí eu fui embora, te coloquei pra fora daqui e os pensamentos ultrapassaram outros rostos e outros sorrisos que me fizeram perder o fôlego e era engraçado, que quando o ar voltava você voltava junto. Meio perdido na esfera de fumaça do cigarro do outro, sem um rosto preciso, mas eu sabia que era você. Voltava em uma piada que alguém fazia, na rua que eu passava e a gente se encontrou sem querer e se abraçou sem querer e sorriu de saudade. Prometemos que manteríamos contatos e trocamos nossos telefones e concluímos com o famoso: “você sabe que eu sinto saudade”. E fomos embora, de novo.
Não nos ligamos e se pensamos em fazê-lo ignoramos a vontade, saímos com outros números e permanecemos distantes o suficiente para não nos lembrarmos. E o acaso transforma tudo irreal quando o assunto volta pra mesa. E alguém ali na mesa do lado fala seu nome e eu espicho a cabeça pra escutar, essa mania que eu sempre tive de achar que era tudo sobre mim e tudo sobre você. Porque por um tempo eu fui você e você foi “em mim”.
Um dia refazendo as caixas de sapato com mil problemas guardados encontrei um pedaço de você, pequeno, em letras garrafais e grandes: “OBRIGADO POR TER VINDO! ADORO VC!”, assim simples, você nunca precisou de muitos alardes, sempre sucinto em suas demonstrações de afeto que quase nunca existiram e resolvi revirar tudo que era seu, porque a distância física não me impede de querer te trazer pra perto emocionalmente. E você era um fofo, ainda deve ser não comigo, mas deve ser. E eu comecei numa sessão nostalgia você e um filme de tempo indeterminado passou.
Você lá em um dos dias mais felizes da minha vida, de surpresa, depois de ter dito que não poderia ir. A gente andando do lado errado e eu chorando no seu ombro por nada e tudo foi meio certo e errado, sempre fomos assim, errados demais para acertamos na mesma proporção.
E todas as confusões, os e-mails que muitas vezes não diziam nada, eram para sabermos que estávamos ali. As mensagens aleatórias que nunca eram o suficiente e os casos mal contados da falta que um fazia quando estava longe. Discussões infinitas de como faltamos em momentos importantes na vida do outro e de como éramos importantes demais para ficarmos de fora de eventos de tamanho porte.
E depois de todas essas lembranças eu apaguei, apaguei seu nome da minha lista de contatos virtuais e dos meus telefones (fiz questão de te colocar nos dois, só por emergência), joguei fora a caixa e apaguei as mensagens mesmo que com dor, mesmo a mais linda de todas, que veio como resposta à minha: “amo suas piadinhas fora de hora”; “E eu amo você”.  Apaguei também. O e-mail, as fotos, tudo. Tentei te colocar o mais distante possível na minha cabeça também, já não era o suficiente manter-me longe apenas, precisava que você saísse e não voltasse em nenhuma outra ocasião, não te queria em carnavais, não te queria em peças de teatro, nem em cinemas vazios, não te queria em almoços de desculpa, nem em mensagens fofas.
Expulsei todas as lembranças, tudo, te coloquei em lugar de nada, só pra ver se você ficava ali, mas mesmo depois do último encontro ter sido como se fossemos estranhos, mesmo depois te ver sentado do lado de uma atual qualquer e a gente fingindo que a distância criou um muro em que não mais nos enxergamos você volta e de nada adiantar tentar me manter longe, porque você volta e fica. E eu fico nessa briga ridícula em não querer te deixar aqui, então vem, pode ficar desde que seja distante do limite que eu criei pra você não entrar, desde que não passe dessa saudade de poder ter sido eu e ninguém mais. Desde que eu nunca mais te coloque em evidência e desde que você nunca mais venha e me peça desculpas, pode ficar aqui na cabeça e ser essa lembrança gostosa de um medo bobo, fica em pensamento de tudo que não foi e do que eu não quero que seja, eu estou deixando você ficar.
Fica, mas se você só se você prometer não voltar.