Chegou, eu tentei adiar mesmo quando sabia que chegaria. Inventei motivos demais, criei razões inexistentes, mas chegou.
Quando a gente chega já bate aquela incerteza e aquela vontade de sair correndo porque em algum lugar deve estar, escondida, brincando com a gente. Tudo bem se não estiver na varanda, pelo menos dessa vez, tudo bem. E a gente sai correndo metalmente pela casa, roda os cantos todos, procura debaixo de tudo, até a hora de subir a escada.
E só pra ter certeza, vasculha os quatro quartos antes, chegar no quinto é certificar tudo que eu tentei evitar durante esse tempo, então eu preciso ficar ocupada demais. Aí chega e de repente a casa grande vai diminuindo, diminuindo e me esmagando e minha vontade é que ela consiga me cuspir pra fora e não me faça voltar ali, não enquanto ela não estiver. Perdi meus conceitos e a casa foi diminuindo mais ainda e era tão grande e de repente não é mais a casa em que eu cresci e tudo parece tão diferente, vazio demais, pequeno demais, sozinho demais.
E eu nem fiquei muito tempo ali, o coração foi ficando menor e tudo foi se desfazendo, dentro e fora de mim. E como uma criança indefesa eu sai correndo e me embrulhei na cama e esperei que talvez ela viesse de longe, só dizer que era mentira. Que a casa ainda era nossa e que essa dor era coisa boba, que ia ficar tudo bem. Esperei, esperei.
Mas alguma coisa ainda me empurrava e implorava pra entrar, fiquei olhando um tempão pra ela, feia, pálida, inexpressiva realidade. Veio ali, escrito numa lápida corrida de nervos e terras, com outros dois nomes em cima. Uma escritura pouca, uma estrela atrás e aí ela bateu, soprou, empurrou e me fez cair e sair correndo, porque eu não queria acreditar. Mas ela ficou ali e tentou me abraçar e eu gritando com ela, enquanto a mesma pedia pra eu me acalmar e dizia que ficaria, que adiou-se por mim e que era preciso aceitá-la.
Deitei nos braços do outro que logo veio me acudir, é sempre assim quando o amor é muito grande, mas não adiantou porque eu estava cercada pela realidade que me impedia de sentir qualquer conforto externo e tudo por dentro era incrédulo.
Ela pedindo desculpas e tudo doendo tanto que chegava a ser incapaz de sentir e o ar faltava de novo e eu começando a acreditar que ia ser impossível e a realidade me certificando e os outros olhos cheios de amparo e tudo muito confuso, como saudade que não se traduz.
E eu consegui ir embora e levar a realidade comigo e agora seremos nós, sem ela.